domingo, novembro 28, 2021

Leitura de Charges e outros textos visuais

 

Comentei no penúltimo post sobre o trabalho de análise textual  no qual venho trabalhando sobre Leitura e Compreensão de Charges. Também comentei: 

"falo sobre o processo dessa pesquisa  em outro post, já que teve muita confusão nas escolas. Obrigada aos professores pelo apoio e pela briga boa!"

A confusão aconteceu porque professores de 3 escolas envolvidas no projeto quase foram impedidas de usar essa charge, gentilmente cedida pelo @LatuffCartoons


Depois de uma loonga reunião, na qual explicamos aos coordenadores e diretores, o porquê de se ler charges na escola, a importância de letramento midiático e informacional e toda a história da charge no Brasil, o trabalho foi realizado e está rendendo bons frutos. Mas, rendeu uma boa dor de cabeça e muita raiva, porque trabalho com charges há muitos anos e só agora, nesse desgoverno, comecei a ter problemas.
Essa semana, uma escola em Brasília também teve censurado o trabalho com charges. O caso repercutiu e, por sorte da escola, a diretora não aceitou as imposições que seriam feitas ao trabalho dos professores e alunos. A   reportagem da TV mostra a repercussão.
O artista, que teve suas charges censuradas, fez um pronunciamento com o qual concordo plenamente.

O vídeo está disponível na página do autor.

Por que concordo com o Chargista? 
Desde 1989, quando as primeiras conexões on-line começaram a se difundir no Brasil, a  preocupação com a  educação midiática vem desafiando pesquisadores. Nesse mesmo ano o MEC (no tempo em que tínhamos MEC, né?) lançou dois livros que foram enviados para as escolas e consegui os meus exemplares fazendo uma solicitação na secretaria de educação a distância, na época:

Já na introdução os livros informam: "Aqui se analisa a imagem  no cotidiano...partindo-se do pressuposto de que o olhar se educa, se cultiva, percebendo significados e construindo relações".

A UNESCO  também lançou, em 2016 o Guia de Alfabetização Midiática e Informacional, que tem como diretriz, a recomendação de políticas educacionais relacionadas aos diferentes tipos de mídias e recomenda:
“Sem políticas e estratégias da Alfabetização Midiática Informacional, provavelmente, aumentarão as disparidades entre os que têm e os que não têm acesso à informação e às mídias, e entre os que exercem ou não a liberdade de expressão. Outras disparidades surgirão entre os que são e os que não são capazes de encontrar, analisar e avaliar de maneira crítica, além de aplicar a informação e o conteúdo midiático na tomada de decisão”

O documento pode ser lido e baixado nesse link.

Lógico, que a charge, o cartoon, os quadrinhos e todas as artes visuais, além dos textos informativos, se encaixam aí.
E o Twitter, em convênio com a OEA, também em 2016, desenvolveu uma cartilha para educadores usarem a rede social de forma segura com seus alunos, para promover a alfabetização digital para todos, que está disponível aqui.

Aqui tem um vídeo em espanhol que também trata da alfabetização digital.

E pra quem acha que não vale a pena trabalhar com charges na escola, deixo aqui um trabalho feito em 93.


O texto acima foi produzido por uma aluna do 4° ano, de zona rural, a partir da leitura da charge do Bello. Com certeza, essa menina hoje é uma cidadã bem mais consciente. Tem informações sobre o Bello, aqui, um cara genial  que nos deixou cedo demais.

Tentei trazer nesse post um pouco de contribuição para brigarmos pelo uso de diferentes textos na sala de aula. Tomara que seja útil a vocês.












 




 


sábado, outubro 23, 2021

Planos, planos, planos...

 

Lendo :
do Marcus Vinícius Leite, @radiohistoria, no Twitter, professor premiado pelo Educadores Inovadores. Gostando muito e volto a falar do livro assim que terminar de ler.

  Um resuminho da editora:

O mês de setembro de 1822 testemunhou eventos que mudaram a história do Brasil e que completam duzentos anos em 2022.Nessa obra, um insólito encontro entre um brasileiro, um português e um cativo africano gera uma jornada para evitar a recolonização do país, risco eminente após o retorno da corte portuguesa para Lisboa.

 O  livro está à venda na editora Giostri, aqui.

Ah, e o Marcus é um mineiro muito gente boa, sempre com dicas legais para professores, no Twitter. Siga-o: @radiohistoria,

Também organizando 3 seminários. Um deles on-line, que se der tempo ainda sai esse ano(depende de um monte de coisas e de disponibilidades dos palestrantes) sobre leitura/ literatura e redes sociais. E como isso pode ajudar na escola. 

Assim que estiver tudo definido aviso aqui.

Análise de textos de alunos sobre leitura de Charges a mil por hora (falo sobre o processo dessa pesquisa em outro post, já que teve muuita confusão nas escolas. Obrigada aos professores pelo apoio e pela briga boa!) e análise do discurso no Twitter, idem (tô morando por lá!).

E até novembro saem mais dois números da Revista Tecnologias na Educação. Estamos terminando a análise dos textos. Aliás, êta equipe boa, que topa trabalhar pelas madrugadas. Gratíssima pela ajuda! 

E, se vc está em São Paulo, aproveite a exposição "Constelação Clarice", que mostra  as conexões de Clarice Lispector com as artes plásticas, no Instituto Moreira Salles. Informações  aqui.

E deixo aqui o post com o qual o Veríssimo nos presenteou ontem:


Se sobreviver às próximas semanas, volto logo :(

Bom fim de semana pra vocês, porque  aqui, nas montanhas de Minas, só tem chuva e friiiio!☔

terça-feira, outubro 12, 2021

Crianças,Alfabetização e Leitura

 

Hoje é dia das Crianças!

E é dia de agradecer a criançada que passou e passa pela minha vida. E por isso, vou contar uma historinha de como as crianças motivaram meu trabalho.

 Pegue um café e vá lendo.

Anos 90. Aceito o desafio de coordenar um projeto de alfabetização em 48 escolas rurais. Isso foi há um looongo tempo!

Deparo-me com livros didáticos muito ruins, em todas as escolas. Para terem uma ideia, o livro de português era todo ilustrado em cinza e azul marinho. E os textos eram do tipo Eva viu a Uva. Bem no estilo dessa tirinha da Mafalda:


Como professora de português e estudiosa sobre alfabetização usar aquilo era inadmissível.

Daí, vencido o boicote das professoras passamos a usar receitas, rótulos, folhetos de supermercado e tudo que remetesse à função social da leitura e da escrita.

Mas, as professoras e a chefe cobravam a leitura de livros. Bom, eu sempre escrevi muito. Então escrever literatura infantil era o caminho.

Começo a produzir livros com os recursos que tínhamos à época: Máquina de escrever, xerox e nanquim. E uma amiga ilustrava os livros, enquanto eu ia escrevendo. Em preto e branco, porque era o que tínhamos.

E enquanto tudo isso rolava eu tinha que visitar cada dia uma escola, para ver como a coisa andava e ajudar professoras e alunos. O projeto começa a dar muito certo. E as crianças, que antes apostavam que nenhum escritor iria à escola delas, começam a ficar bem íntimas e passam a pedir histórias disso, histórias daquilo. Teve até pedido de histórias sobre esqueleto 😲E o filho e os sobrinhos também davam palpites. E eu escrevia.

E isso rendeu 22 livros.

E os alunos coloriam, faziam outras histórias a partir das minhas, faziam outras ilustrações e me mandavam, junto com bilhetinhos.

Vendo como eles gostavam de criar suas próprias ilustrações resolvi enviar, para todas as escolas, um livro só com o texto para que eles ilustrassem a história. E fiz um concurso, com banca e tudo, que escolheu as ilustrações mais legais. Não importava se eram bonitas ou não. Importante era ser legal.

Essas, aí abaixo, são algumas páginas de um livro que eles ilustraram.


As crianças colocaram no desenho a compreensão que elas tiveram do texto. E eu adorei.  💓

Final do ano, molecada toda lendo e escrevendo pra caramba. Os livros foram enviados para todas as escolas, deixando de ser material exclusivo para zona rural, graças à secretária de educação que era uma educadora de verdade.

Depois de 4 anos, o projeto foi premiado como um dos 20 melhores projetos de alfabetização do Brasil, pela rede Latino-Americana de Alfabetização Integral. E isso me permitiu viajar quase todo o país, mostrando o trabalho. E conheci gente fantástica. Gente que dá o sangue para alfabetizar uma turma. E os livrinhos foram juntos. Muitas cidades passaram a usá-los como suporte para a alfabetização e cartinhas e desenhos chegaram a mim, de todo o país.

E o melhor de tudo isso foi a cartinha que recebi de uma aluna.

 

Quase um Oscar, escrito em papel de seda.

E aí veio a pandemia. E o caos nas escolas.

Muitos professores que já me conheciam e outras que eu não conhecia, pediram ajuda. E mesmo estando envolvida em outros projetos, lá fomos nós. E deu certo de novo. E os livrinhos e todo o meu material didático voltou a circular por aí, principalmente para alfabetização.

Vou ver se arranjo um tempo para digitalizar os livros e disponibilizar aqui no blog. E quem quiser, poderá usar com seus alunos, sem custo algum, porque não fiz esses livros pra ganhar dinheiro. Como professora eu já sou rycah!😊

Assim que estiver pronto, aviso aqui.

Ah, e esse trabalho migrou pra dois blogs: O Historinhas onde a garotada dizia o que deveria acontecer com os personagens e esse aqui, onde dou palpites aos professores sobre o que pode ser feito em sala de aula.

O Historinhas não está mais on-line, foi “sumido” pelo servidor do Terra, mas rendeu um artigo apresentado na SBIE, em 2005, e que é citado até hoje. Chique, né?

Tá disponível aqui:

https://br-ie.org/pub/index.php/sbie/article/view/416/402


E você ?  Seus alunos influenciaram seu trabalho?


 

 



 


sábado, outubro 09, 2021

Nani e a literatura

Essa semana o cartunista Nani se foi, vítima da Covid.  Mais um cérebro roubado desse país desgovernado.

Para quem não o conhece, Nani foi um cartunista  que publicava em jornais, revistas, e que também atuava em roteiros de televisão.  Além de  tirinhas e charges ele também produziu livros infantis.

Como sempre trabalhei muito com jornal em sala de aula (hoje tá difícil,né?) e organizei muito curso para professores sobre o assunto,  dois livros do Nani foram essenciais para isso.

Os livros "O jornal do menininho" e o "Outro Jornal do menininho" explica de forma bastante lúdica, como um menino criou seu próprio jornal.

 O "Jornal do Menininho" tem a primeira edição em  1991  e o segundo livro foi publicado em 2003.



Você pode encontrar outros livros infantis, na página do Nani, na seção Livros Infantis, clicando aqui.

Mas, o último livro dele, específico para alfabetização, ainda não está  no site do autor. Está disponível apenas no site da editora. É o livro "Tem outra palavra". Nele o autor brinca com palavras dentro de palavras, uma atividade linguística interessante no processo de alfabetização e que pode desencadear inúmeras atividades com palavras de diferentes textos.


                                                                    Página do livro

Esse livro pode ser adquirido no site da editora Compor, aqui.


E, se você quiser usar atividades de leitura de jornal de forma crítica, em suas aulas, sugerimos o clássico livro da professora Maria Alice Faria, da Editora Contexto: "O Jornal na Sala de Aula". A primeira edição é  de 1996 e eu dei sorte de encontrá-lo na Feira do Livro do COLE (Congresso de Leitura do Brasil), na UNICAMP. Aliás, essa pandemia precisa acabar, pra  gente poder ir a esse Congresso novamente. Não há melhor espaço/evento pra conhecer gente, reencontrar amigos  e aprender muito sobre leitura e escrita, porque todos os pesquisadores do assunto se encontram lá.



Da mesma autora temos 'Como usar o jornal na sala de aula" e os dois livros podem ser encontrados baratinhos na Amazon (infelizmente, não estou sendo paga para indicar 😕).

E, quanto ao Nani, que ele fique em paz, pois fez muita gente feliz.

 

quinta-feira, setembro 30, 2021

Tirinha, matemática e compreensão

 

Laerte fez essa postagem, outro dia, no twitter:





O que achei interessante na postagem foi a explicação que o autor deu sobre o processo de criação, porque eu usei muito essa tirinha em aulas de português, até no ensino médio.

Depois da postagem fui analisar porque eu achei mais interessante usar em aulas de compreensão textual, minha área. Quais foram meus processos cognitivos na compreensão desse quadrinho? Quais os conhecimentos prévios que eu utilizei para compreender o texto?

1-Meu conhecimento prévio: Eu também odeio matemática.

2-Problemas de matemática sempre me pareceram ser escritos em uma linguagem alienígena. Eu tinha que ler umas 3/4 vezes até descobrir o que era pra fazer. E eu não me acho burra. Já fiz coisa muito mais difícil. 

 Era tão complicado, que quando fiz pedagogia (é, eu fiz isso também!) e tive que cursar matemática obrigatória junto com a turma de engenharia, ainda por cima, parei de  assistir as aulas e contratei um professor particular. Cheguei na prova final precisando tirar 7 pontos. Mas, jurei que nunca faria aquilo de novo e fui aprovada. Mas, porque eu consegui ser aprovada? A linguagem foi o processo cognitivo que eu utilizei.

Isso porque o professor particular mudou a linguagem, porque ele me fez entender o porquê de ter que aprender a calcular, por exemplo, um bendito gráfico de função e onde eu poderia usar esse tipo de conhecimento. E eu nunca usei, hahahahaaa. O computador faz, né?

3- Mas, e a tirinha? Na tirinha fica claro que o garotinho não entende a noção matemática de subtração. E por que ele não entende? Pressuponho, pela imagem retratada no quadrinho, que é uma criança na fase de alfabetização, com mais ou menos 7/8 anos. Nessa fase do desenvolvimento infantil, segundo Jean Piaget, todo o processo de aprendizagem deve ser concreto. A criança não tem ainda a habilidade cognitiva para abstrair.  No quinto quadrinho o garotinho grita:

-Eu paguei, não tenho mais!

Se ele não tem mais, então a coisa não existe. E a resposta dele está certa, segundo o raciocínio infantil dessa idade: ele lucrou 2 reais, porque não tinha mais nenhum  lápis.👍

Daí que trabalhar a tirinha em aulas de linguagem é muito lógico. Nossos alunos só entendem o que o desenvolvimento cognitivo e o conhecimento de mundo deles permite. E a tirinha permite uma grande discussão em sala. E quanto mais se discute, mais conhecimento de mundo  e mais processamento de inferências são ampliados. Depois explico melhor, em outro post, sobre processamento de inferências.

Como resolver isso? Com professores preparados para ampliar conhecimento de mundo, usando diferentes tipos de textos que envolvam novos aprendizados, que provoquem perguntas e não respostas encaixotadas. 

Experimentem usar a tirinha em aula de linguagens .Peçam aos alunos para explicar o que compreenderam. Vocês irão se surpreender.

Outra coisa: quando li essa tirinha pela primeira vez, eu entendi como uma crítica  que Laerte estava fazendo ao ensino de matemática.  Quando ele explicou o porquê de ter feito essa tirinha, eu me lembrei do livro de Umberto Eco, Obra Aberta, onde ele esclarece que o leitor/receptor do texto é que estabelece o sentido para a obra. Eu estabeleci o sentido que meu conhecimento de mundo permitia.

Isso já aconteceu com livros de literatura infantil que escrevi. Em um deles, uma fada está desempregada e  no meio da história ela começa  a ler classificados de jornal, procurando emprego. Uma coordenadora pedagógica, lá da Região Norte, me explicou que ela estava usando o livro na formação de professoras, principalmente, para demonstrar intertextualidade. Isso é,  como que dentro de um texto pode haver outros textos. E eu não pensei nada disso quando escrevi. Eu só queria contar uma história.😄



Leitura de Charges e outros textos visuais

  Comentei no penúltimo post sobre o trabalho de análise textual  no qual venho trabalhando sobre Leitura e Compreensão de Charges. Também ...